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A Medicina na Vida Real

As doenças cardiovasculares são bastante comuns. Isso vem possibilitando que os cardiologistas tenham um amplo material científico à sua disposição com robustas evidências para aplicarem em sua prática clínica. Mas, como em toda a medicina, eles estão mais próximos do que não sabem do que de qualquer certeza absoluta. Vamos tomar por exemplo uma polêmica que se arrastou por um tempo: usar medicamentos ou stents (pequenos tubos inseridos para desbloquearem artérias) para o tratamento de doença arterial crônica estável. Essa polêmica resultou em graves acusações há poucos anos nos Estados Unidos alegando que alguns cardiologistas indicariam em excesso a colocação de stent com fins puramente lucrativos.

Um estudo importante, chamado COURAGE, mostrou que não havia benefício no uso de stent quando comparado a uso de medicamentos. Isso reforçou as acusações de má conduta médica.

O problema é que quando analisamos desta forma estamos fazendo uma enorme simplificação baseada num estudo clínico. O desafio fundamental é traduzir os achados de um ensaio muito bem realizado na prática do dia-a-dia. O que chamamos de vida real na medicina. Podemos sempre extrapolar os resultados de modo generalizado para os nossos pacientes? O correto seria antes de mais nada responder para nós mesmos: o meu paciente se fosse incluído neste estudo, teria os mesmos resultados?

Todos os grandes trabalhos científicos que são marcantes na medicina são muito bem realizados. Mas se estivermos atentos veremos que os pacientes são acompanhados de um modo diferente dos nossos pacientes reais. Recebem consultas frequentes, são intensamente monitorados, realizam consultas periódicas, recebem as medicações de graça… Isto não acontece no nosso cotidiano!

A vida real raramente é um conto de fadas. Raramente segue esses padrões rigorosos.
No estudo COURAGE os pacientes tomaram as medicações de modo correto. Estima-se que na vida real cerca de 50% o façam.

Considero bastante difícil aplicar os achados tão perfeitos dos estudos na minha prática. Existem muitos fatores a serem considerados quando falamos em aderência a um tratamento. Hoje, quando se busca um compartilhamento nas decisões entre o médico e o paciente, precisamos levar em conta diversos aspectos que só a individualização é capaz de nos mostrar.

Diante de tanta informação e incerteza como a medicina é aplicada nosso dever é elucidar os caminhos que serão melhores adequados numa escolha terapêutica: às vezes podemos deixar para trás condutas absolutas em prol de um processo mais claro e com final feliz.

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